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Quando me perguntam: "Que mal faz isso ou aquilo, esse ou aquele? No final, todos não roubam? Já que são todos iguais, vou votar nesse só para ter algo diferente lá e pronto!" Ou então dizem que essa é a única possibilidade de se retirar a hegemonia da esquerda (geralmente sem saber diferenciar esquerda de qualquer coisa que ela possa ser), reproduzindo discursos caricatos, sensacionalistas e memes baratos. Quais os custos e desdobramentos das ações por trás do nosso cotidiano?
Em um diálogo
com a IA do Gemini, foi possível construir essa tessitura de ideias e caminhos
que nos levam a pensar sobre o mundo, os fenômenos sociais e as pessoas de hoje
em dia. É algo para além da polaridade política; na verdade, segue o fluxo
clássico de distopias mescladas com um conceito ou outro de pensadores sobre o
mundo em geral.
É nesse processo que Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981), torna-se profético — e, em algum momento, talvez se torne também quase efêmero, já que a realidade sempre encontra meios de se fazer mais cruel que a literatura. Entretanto, o ponto de partida, já que utilizaremos a literatura para análise, seria pensar no livro e no papel da leitura. Deste modo, Ray Bradbury, em Fahrenheit 451, apresenta uma sociedade em que a destruição da cultura não acontece simplesmente porque um ditador decidiu proibir livros. Ela nasce também de uma população que progressivamente prefere
+ velocidade
+ entretenimento
+ estímulo
+ superficialidade
em detrimento
da
[leitura]
de + reflexão
+ silêncio
+ complexidade.
Existe uma
relação entre espetacularização, massificação cultural e a produção de um
determinado “regime de verdade”.
A ideia
principal aí é: o livro é perigoso porque obriga o indivíduo a parar.
Parar significa
pensar.
Pensar
significa comparar.
Comparar
significa perceber contradições.
Perceber
contradições significa perguntar: “Quem está se beneficiando disso?”
Em que medida fazemos essa pergunta no dia a dia, quando estamos julgando os casos em que todos se tornaram especialistas, quando pensamos no Brasil dos Brasis que cada um enxerga? Ou quando retiramos respostas prontas elaboradas pela IA, que pensaria e determinaria o nosso senso crítico, dada a falta de tempo que os tempos modernos custam, competindo, assim, com redes sociais, views, stories e as demais formas de entretenimento massificados, tornados padrão de normalidade e referência cega como uma luz colocada diretamente em frente aos olhos.
Desta feita,
cada distopia faz o recorte de um elemento possível na constituição de uma
visão abrangente sobre a realidade, que se torna cada vez mais difícil de
analisar de forma clara, concisa e acessível. Um povo sem referência, diluído
pela modernidade, tem seu reflexo em cada distopia, uma parte de um todo
possível. O posicionamento das massas se torna um construtor de uma visão de
mundo cujo poder escapa de suas mãos ao mesmo tempo que nasce delas.
Alguns
exemplos:
Na distopia orwelliana,
diríamos:
- “Eles estão mentindo para nós.”
- “Nós não queremos saber.”
Na distopia bradburiana:
- “Nós preferimos ser entretidos.”
Na distopia de Não
Olhe para Cima:
- “Sabemos que é verdade, mas
transformamos a verdade em espetáculo.”
E, em Idiocracy:
- “A própria sociedade se tornou
incapaz de perceber que está destruindo a si mesma.”
Em Idiocracy,
já não conseguimos sequer perceber que existiria algum problema. O espetáculo
passa a substituir a realidade — um paralelo ajustável ao pensamento de
intelectuais como Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo.
Sua obra não é uma distopia literária tradicional, mas sim uma teoria social,
sendo talvez uma das peças nesse quebra-cabeça que melhor complementa Não
Olhe para Cima.
A questão de Debord
não é simplesmente que as pessoas assistem à televisão demais. É algo mais
profundo: a experiência direta da realidade passa a ser substituída por
representações da realidade.
Você não
precisa mais discutir:
- “O problema existe?”
Você discute:
- “Qual narrativa sobre o problema
devo consumir?”
E isso produz
uma situação absurda: o acontecimento real torna-se menos importante que sua
representação.
Um desastre
pode estar acontecendo. Mas a discussão pública passa a ser:
- Quem ganhou o debate;
- Quem viralizou;
- Quem foi humilhado;
- Qual meme é melhor;
- Qual celebridade comentou;
- Quem é o vilão;
- Qual lado “venceu”.
Enquanto isso:
o problema continua acontecendo.
Não existe
necessariamente um momento em que alguém anuncia: “A distopia começou.” O
processo é gradual.
Primeiro: a verdade é inconveniente.
Depois: a verdade é politizada.
Depois: a verdade é apenas uma opinião.
Depois: quem apresenta a verdade torna-se
inimigo.
Depois: o espetáculo passa a ser mais
importante que o acontecimento.
Depois: as pessoas começam a defender a própria
narrativa contra evidências.
Finalmente: a realidade deixa de conseguir corrigir
a narrativa.
E esse é o
ponto de ruptura. Porque uma sociedade saudável possui um mecanismo de
correção:
- “Minha crença estava errada; os
fatos demonstraram isso; portanto precisamos mudar.”
A sociedade
distópica perde justamente essa capacidade. Ela passa a dizer:
- “Os fatos estão errados.”
A distopia
contemporânea não exige campos de concentração ou ditadores de ferro para se
instalar. Ela se consolida silenciosamente quando uma sociedade prefere o
conforto de seus preconceitos e de seu entretenimento à fadiga de confrontar a
realidade, transformando a verdade em espetáculo e a sobrevivência coletiva em
uma disputa de narrativas. O verdadeiro perigo não é apenas a censura do Estado
(Orwell), mas a autodestruição do senso comum da realidade.
Em Ievguêni
Zamiátin — encontramos a matriz de todas as distopias modernas. Zamiátin
apresenta o "Estado Único", uma sociedade inteiramente construída em
vidro, onde todos vivem sob vigilância transparente, sem paredes, sem
privacidade e sem nomes (as pessoas são números, como D-503). Neste mundo, a
liberdade e a felicidade são tratadas como coisas incompatíveis: para ser
perfeitamente feliz, o ser humano precisa ser despojado de sua alma, de sua
imaginação e de sua capacidade de dissentir. É o triunfo da racionalidade
tecnocrática e fria sobre a complexidade humana. Parcela de um mesmo processo
que podemos observar na sociedade digital atualmente, publicizando e “monetizando”
todos os aspectos da vida. Somos produtos em um sistema na disputa de lucrar a
qualquer custo, seja fazendo de amigos de infância inimigos mortais, por
pensarem eles diferente de mim.
O que
vivenciamos não é apenas um desvio político passageiro, mas uma fratura
epistêmica e moral. Sob a ótica dos autores com quem conversamos, o Brasil
atual expõe de forma cirúrgica os perigos dessa engrenagem:
- Arendt e a perda da realidade comum:
Quando a ciência, a evidência empírica e os fatos verificáveis são
rebaixados à condição de "meras opiniões", a sociedade perde o
chão sobre o qual é possível construir o futuro. Não se debate mais como
resolver os problemas do país; debate-se se o problema de fato existe.
- Bauman e a fuga da responsabilidade: Em
uma sociedade marcada pela incerteza crônica, aceitar que a crise é fruto
de escolhas coletivas, de déficits educacionais profundos e de nossa
própria incapacidade de planejar o amanhã exige uma maturidade dolorosa. É
muito mais reconfortante — embora suicida a longo prazo — terceirizar a
culpa para um inimigo externo ou para uma conspiração conveniente.
- Geertz e o colapso do sentido: Quando as
teias de significado que sustentam a vida em comunidade se esgarçam, o
país se fragmenta em tribos incomunicáveis. Cada grupo habita uma
realidade paralela, onde a verdade é ditada pelo grau de pertencimento a
uma narrativa, e não pela correspondência com os fatos.
O resultado
desse ciclo é uma espiral de definhamento lento. Sem autonomia científica, sem
projeto de país e com o tecido institucional corroído pela espetacularização da
política, o custo de longo prazo não é uma catástrofe súbita e cinematográfica,
mas a erosão silenciosa do potencial de uma nação inteira.
A literatura e
a teoria social não nos dão fórmulas fáceis de resgate, mas nos oferecem algo
vital: a clareza de nomear o processo. Reconhecer os mecanismos dessa armadilha
é o primeiro passo — por mais melancólico que pareça — para não nos deixarmos
anestesiar por ela.
Diante desse
cenário de desgaste coletivo, me pergunto sobre o fator que mais enfraquece a
nossa capacidade de reação: seria a descrença nas instituições, o esvaziamento
da educação crítica ou o cansaço psicológico da própria sociedade?
Esse cansaço
psicológico referido não é um simples sintoma de estresse individual: ele é o
produto estrutural de um sistema que exaure o corpo e a mente para manter sua
engrenagem rodando.
Quando pensamos
nisso através dos autores e das literaturas que cruzamos, percebemos que essa
exaustão é parte deliberada do mecanismo de controle:
- O esgotamento como ferramenta de
paralisia: Bauman e Arendt mostram que uma população
cronicamente esgotada, lutando diariamente pela sobrevivência básica em um
mercado implacável, perde a energia vital necessária para o pensamento
crítico, para a organização coletiva ou para a indignação política. O
cansaço é o anestésico perfeito. Quando a única preocupação do dia é pagar
as contas e sobreviver ao caos do dia seguinte, a grande política e o
futuro do país tornam-se luxos inalcançáveis.
- A servidão contemporânea: A
estrutura econômica global e local muitas vezes opera de forma mais
perversa do que modelos tradicionais de castas ou a escravidão colonial.
Naquelas, a opressão era explícita e fisicamente delimitada, gerando
clareza sobre quem era o opressor e qual era a violência sofrida. Hoje, a
exploração vem mascarada de "mérito", "flexibilidade",
"empreendedorismo" e "liberdade de escolha". A pessoa
pobre ou de classe média é levada a acreditar que, se está sufocada, a
culpa é exclusiva de sua própria incapacidade de vencer no jogo — o que
gera uma culpa internalizada avassaladora.
- A distopia do definhamento: É por
isso que a espiral se torna tão difícil de escapar. O sistema consome os
recursos materiais, a autonomia e a saúde mental das pessoas, gerando o
cenário perfeito para que elas busquem refúgio em bodes expiatórios e
ilusões falsas. O espetáculo político alimenta-se desse cansaço, oferecendo
ódio e simplificações baratas a quem não tem mais espaço mental para a
complexidade.
Esse
definhamento lento e silencioso — em que as pessoas são esvaziadas de sua
capacidade de sonhar com um horizonte coletivo — talvez seja a face mais
sombria do nosso tempo.
Nós reforça o perigo daquilo que chamei de
ausência de autonomia e o definhamento coletivo:
- A matematização e a burocracia: No
livro de Zamiátin, a vida é reduzida a tabelas de horários
estatais, fórmulas matemáticas e planilhas de felicidade obrigatória. Isso
se assemelha à forma como o cidadão moderno é tratado pelas estruturas
globais e algorítmicas atuais: apenas dados, views, consumidores ou
números geridos para manter a engrenagem rodando.
- A ilusão do coletivo sem sujeito:
Em Nós, as pessoas abdicam voluntariamente de sua
individualidade porque o peso de pensar por si mesmas é grande demais. É o
reflexo daquele cansaço psicológico comentado há pouco: quando a exaustão
bate, o indivíduo prefere entregar seu senso crítico a fórmulas prontas,
discursos salvadores ou algoritmos de redes sociais, desde que isso lhe
poupe o esforço doloroso de confrontar a realidade.
Diante desse
cenário em que a estrutura suga a energia vital das pessoas, onde ainda
restariam (ou poderiam ser reconstruídos) os pequenos refúgios de lucidez e
resistência humana?
Chegamos aqui
ao livro de Loyola Brandão sem uma resposta ao questionamento central desse blablaismo,
mas com elementos que gostaria de imaginar outros finais ao livro Não
Verás País Nenhum, o qual traz uma dimensão ecológica ao problema geral.
Sendo o Brasil uma referência mundial com seus rios e matas, faz todo sentido
essa camada a mais ao resultado final:
- O final da "Normalização do
Colapso" (A distopia adaptada):
- A premissa: Não há uma explosão
revolucionária nem uma redenção verde. A sociedade simplesmente aprende a
respirar o ar poluído, a comprar água engarrafada de péssima qualidade e
a naturalizar o calor extremo.
- O significado: É o triunfo da
distopia huxleyana combinada com a nossa realidade. As pessoas
continuam trabalhando exaustivamente, consumindo memes e culpando o
"inimigo da vez" enquanto o país derrete econômica e
climaticamente. A catástrofe deixa de ser um evento e passa a ser o clima
organizacional do país.
- O final da "Guerra Tribal
Perpétua" (O fracionamento total):
- A premissa: O Estado centralizador
perde força e o território fragmenta-se em feudos de milícias,
corporações e bolhas ideológicas incomunicáveis. Cada tribo tem sua
própria "verdade científica" e seu próprio mercado de
sobrevivência.
- O significado: Em vez de um grande
opressor orwelliano, o país implode em microfascismos cotidianos.
A energia mental que restou ao povo é totalmente gasta em destruir o
vizinho ideológico, blindando as estruturas de poder globais e locais de
qualquer cobrança real. Todos vigiam todos, e a solidariedade de classe é
substituída pelo ódio identitário ou político.
- O final do "Despertar Tarde
Demais" (O ecocídio irreversível):
- A premissa: O ciclo de negação da
ciência e de destruição ambiental chega a um ponto de ruptura sistêmica
(uma megasseca prolongada ou o colapso total da matriz energética e da
produção de alimentos) em que nenhuma narrativa ou bode expiatório
consegue mais encobrir a realidade.
- O significado: A população
finalmente percebe que a culpa era do modelo predatório que apoiaram ou
toleraram, mas a constatação chega quando os recursos ecológicos e
institucionais já cruzaram o "ponto de não retorno". O desfecho
é a sobrevivência nua e crua em ruínas fumegantes.
Reflexão
Final
Pensar em Não
Verás País Nenhum hoje nos força a encarar a pergunta mais
desconfortável de todas: quando a exaustão se torna permanente, a única saída
coletiva é a utopia de uma chuva que limpe tudo, ou cabe à consciência lúcida
resistir justamente na lucidez do diagnóstico?
Poderíamos
também fazer menções honrosas a Ensaio sobre a Cegueira seguido
do Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago; ao retorno a
fundamentalismos em uma sociedade insegura por perder o referencial para suas
respostas em Mundo em Descontrole, de Anthony Giddens; O
Conto da Aia, de Margaret Atwood, e tantos outros.


Referências
- ARENDT, Hannah. As Origens do
Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
- ATWOOD, Margaret. O Conto da Aia.
São Paulo: Rocco, 2017.
- BAUMAN, Zygmunt. Modernidade
Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
- BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. São
Paulo: Biblioteca Azul, 2012.
- BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não
Verás País Nenhum. São Paulo: Global Editora, 2011.
- DEBORD, Guy. A Sociedade do
Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
- GEERTZ, Clifford. A Interpretação
das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.
- GIDDENS, Anthony. Mundo em
Descontrole: O que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro:
Record, 2000.
- HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo
Novo. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
- IDIOCRACY. Direção: Mike Judge.
Estados Unidos: Twentieth Century Fox, 2006. (Filme).
- LUTES, Jason. Berlin. São Paulo: Veneta,
2020.
- MCKAY, Adam. Não Olhe para Cima
(Don't Look Up). Estados Unidos: Netflix, 2021. (Filme).
- ORWELL, George. 1984. São Paulo:
Companhia das Letras, 2009.
- SARAMAGO, José. Ensaio sobre a
Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
- SARAMAGO, José. Ensaio sobre a
Lucidez. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
- SPIEGELMAN, Art. Maus. São Paulo:
Companhia das Letras, 2005.
- ZAMIÁTIN, Ievguêni. Nós. São Paulo: Aleph, 2017.















