terça-feira, 3 de novembro de 2026

Distopia Epistemológica – Guia de Leituras

...

Quando me perguntam: "Que mal faz isso ou aquilo, esse ou aquele? No final, todos não roubam? Já que são todos iguais, vou votar nesse só para ter algo diferente lá e pronto!" Ou então dizem que essa é a única possibilidade de se retirar a hegemonia da esquerda (geralmente sem saber diferenciar esquerda de qualquer coisa que ela possa ser), reproduzindo discursos caricatos, sensacionalistas e memes baratos. Quais os custos e desdobramentos das ações por trás do nosso cotidiano?

Em um diálogo com a IA do Gemini, foi possível construir essa tessitura de ideias e caminhos que nos levam a pensar sobre o mundo, os fenômenos sociais e as pessoas de hoje em dia. É algo para além da polaridade política; na verdade, segue o fluxo clássico de distopias mescladas com um conceito ou outro de pensadores sobre o mundo em geral.

É nesse processo que Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981), torna-se profético — e, em algum momento, talvez se torne também quase efêmero, já que a realidade sempre encontra meios de se fazer mais cruel que a literatura. Entretanto, o ponto de partida, já que utilizaremos a literatura para análise, seria pensar no livro e no papel da leitura. Deste modo, Ray Bradbury, em Fahrenheit 451, apresenta uma sociedade em que a destruição da cultura não acontece simplesmente porque um ditador decidiu proibir livros. Ela nasce também de uma população que progressivamente prefere 

+ velocidade

+ entretenimento

+ estímulo

+ superficialidade

em detrimento da

[leitura]

de + reflexão

+ silêncio

+ complexidade.

Existe uma relação entre espetacularização, massificação cultural e a produção de um determinado “regime de verdade”.

A ideia principal aí é: o livro é perigoso porque obriga o indivíduo a parar.

Parar significa pensar.

Pensar significa comparar.

Comparar significa perceber contradições.

Perceber contradições significa perguntar: “Quem está se beneficiando disso?”

Em que medida fazemos essa pergunta no dia a dia, quando estamos julgando os casos em que todos se tornaram especialistas, quando pensamos no Brasil dos Brasis que cada um enxerga? Ou quando retiramos respostas prontas elaboradas pela IA, que pensaria e determinaria o nosso senso crítico, dada a falta de tempo que os tempos modernos custam, competindo, assim, com redes sociais, views, stories e as demais formas de entretenimento massificados, tornados padrão de normalidade e referência cega como uma luz colocada diretamente em frente aos olhos.

Desta feita, cada distopia faz o recorte de um elemento possível na constituição de uma visão abrangente sobre a realidade, que se torna cada vez mais difícil de analisar de forma clara, concisa e acessível. Um povo sem referência, diluído pela modernidade, tem seu reflexo em cada distopia, uma parte de um todo possível. O posicionamento das massas se torna um construtor de uma visão de mundo cujo poder escapa de suas mãos ao mesmo tempo que nasce delas.

Alguns exemplos:

Na distopia orwelliana, diríamos:

  • “Eles estão mentindo para nós.”

Na distopia huxleyana:
  • “Nós não queremos saber.”

Na distopia bradburiana:

  • “Nós preferimos ser entretidos.”

Na distopia de Não Olhe para Cima:

  • “Sabemos que é verdade, mas transformamos a verdade em espetáculo.”


E, em Idiocracy:

  • “A própria sociedade se tornou incapaz de perceber que está destruindo a si mesma.”

Em Idiocracy, já não conseguimos sequer perceber que existiria algum problema. O espetáculo passa a substituir a realidade — um paralelo ajustável ao pensamento de intelectuais como Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo. Sua obra não é uma distopia literária tradicional, mas sim uma teoria social, sendo talvez uma das peças nesse quebra-cabeça que melhor complementa Não Olhe para Cima.

A questão de Debord não é simplesmente que as pessoas assistem à televisão demais. É algo mais profundo: a experiência direta da realidade passa a ser substituída por representações da realidade.

Você não precisa mais discutir:

  • “O problema existe?”

Você discute:

  • “Qual narrativa sobre o problema devo consumir?”

E isso produz uma situação absurda: o acontecimento real torna-se menos importante que sua representação.

Um desastre pode estar acontecendo. Mas a discussão pública passa a ser:

  • Quem ganhou o debate;
  • Quem viralizou;
  • Quem foi humilhado;
  • Qual meme é melhor;
  • Qual celebridade comentou;
  • Quem é o vilão;
  • Qual lado “venceu”.

Enquanto isso: o problema continua acontecendo.

Não existe necessariamente um momento em que alguém anuncia: “A distopia começou.” O processo é gradual.

Primeiro: a verdade é inconveniente.

Depois: a verdade é politizada.

Depois: a verdade é apenas uma opinião.

Depois: quem apresenta a verdade torna-se inimigo.

Depois: o espetáculo passa a ser mais importante que o acontecimento.

Depois: as pessoas começam a defender a própria narrativa contra evidências.

Finalmente: a realidade deixa de conseguir corrigir a narrativa.

E esse é o ponto de ruptura. Porque uma sociedade saudável possui um mecanismo de correção:

  • “Minha crença estava errada; os fatos demonstraram isso; portanto precisamos mudar.”

A sociedade distópica perde justamente essa capacidade. Ela passa a dizer:

  • “Os fatos estão errados.”

A distopia contemporânea não exige campos de concentração ou ditadores de ferro para se instalar. Ela se consolida silenciosamente quando uma sociedade prefere o conforto de seus preconceitos e de seu entretenimento à fadiga de confrontar a realidade, transformando a verdade em espetáculo e a sobrevivência coletiva em uma disputa de narrativas. O verdadeiro perigo não é apenas a censura do Estado (Orwell), mas a autodestruição do senso comum da realidade.

Em Ievguêni Zamiátin — encontramos a matriz de todas as distopias modernas. Zamiátin apresenta o "Estado Único", uma sociedade inteiramente construída em vidro, onde todos vivem sob vigilância transparente, sem paredes, sem privacidade e sem nomes (as pessoas são números, como D-503). Neste mundo, a liberdade e a felicidade são tratadas como coisas incompatíveis: para ser perfeitamente feliz, o ser humano precisa ser despojado de sua alma, de sua imaginação e de sua capacidade de dissentir. É o triunfo da racionalidade tecnocrática e fria sobre a complexidade humana. Parcela de um mesmo processo que podemos observar na sociedade digital atualmente, publicizando e “monetizando” todos os aspectos da vida. Somos produtos em um sistema na disputa de lucrar a qualquer custo, seja fazendo de amigos de infância inimigos mortais, por pensarem eles diferente de mim.

O que vivenciamos não é apenas um desvio político passageiro, mas uma fratura epistêmica e moral. Sob a ótica dos autores com quem conversamos, o Brasil atual expõe de forma cirúrgica os perigos dessa engrenagem:

  • Arendt e a perda da realidade comum: Quando a ciência, a evidência empírica e os fatos verificáveis são rebaixados à condição de "meras opiniões", a sociedade perde o chão sobre o qual é possível construir o futuro. Não se debate mais como resolver os problemas do país; debate-se se o problema de fato existe.
  • Bauman e a fuga da responsabilidade: Em uma sociedade marcada pela incerteza crônica, aceitar que a crise é fruto de escolhas coletivas, de déficits educacionais profundos e de nossa própria incapacidade de planejar o amanhã exige uma maturidade dolorosa. É muito mais reconfortante — embora suicida a longo prazo — terceirizar a culpa para um inimigo externo ou para uma conspiração conveniente.
  • Geertz e o colapso do sentido: Quando as teias de significado que sustentam a vida em comunidade se esgarçam, o país se fragmenta em tribos incomunicáveis. Cada grupo habita uma realidade paralela, onde a verdade é ditada pelo grau de pertencimento a uma narrativa, e não pela correspondência com os fatos.

O resultado desse ciclo é uma espiral de definhamento lento. Sem autonomia científica, sem projeto de país e com o tecido institucional corroído pela espetacularização da política, o custo de longo prazo não é uma catástrofe súbita e cinematográfica, mas a erosão silenciosa do potencial de uma nação inteira.

A literatura e a teoria social não nos dão fórmulas fáceis de resgate, mas nos oferecem algo vital: a clareza de nomear o processo. Reconhecer os mecanismos dessa armadilha é o primeiro passo — por mais melancólico que pareça — para não nos deixarmos anestesiar por ela.

Diante desse cenário de desgaste coletivo, me pergunto sobre o fator que mais enfraquece a nossa capacidade de reação: seria a descrença nas instituições, o esvaziamento da educação crítica ou o cansaço psicológico da própria sociedade?

Esse cansaço psicológico referido não é um simples sintoma de estresse individual: ele é o produto estrutural de um sistema que exaure o corpo e a mente para manter sua engrenagem rodando.

Quando pensamos nisso através dos autores e das literaturas que cruzamos, percebemos que essa exaustão é parte deliberada do mecanismo de controle:

  • O esgotamento como ferramenta de paralisia: Bauman e Arendt mostram que uma população cronicamente esgotada, lutando diariamente pela sobrevivência básica em um mercado implacável, perde a energia vital necessária para o pensamento crítico, para a organização coletiva ou para a indignação política. O cansaço é o anestésico perfeito. Quando a única preocupação do dia é pagar as contas e sobreviver ao caos do dia seguinte, a grande política e o futuro do país tornam-se luxos inalcançáveis.
  • A servidão contemporânea: A estrutura econômica global e local muitas vezes opera de forma mais perversa do que modelos tradicionais de castas ou a escravidão colonial. Naquelas, a opressão era explícita e fisicamente delimitada, gerando clareza sobre quem era o opressor e qual era a violência sofrida. Hoje, a exploração vem mascarada de "mérito", "flexibilidade", "empreendedorismo" e "liberdade de escolha". A pessoa pobre ou de classe média é levada a acreditar que, se está sufocada, a culpa é exclusiva de sua própria incapacidade de vencer no jogo — o que gera uma culpa internalizada avassaladora.
  • A distopia do definhamento: É por isso que a espiral se torna tão difícil de escapar. O sistema consome os recursos materiais, a autonomia e a saúde mental das pessoas, gerando o cenário perfeito para que elas busquem refúgio em bodes expiatórios e ilusões falsas. O espetáculo político alimenta-se desse cansaço, oferecendo ódio e simplificações baratas a quem não tem mais espaço mental para a complexidade.

Esse definhamento lento e silencioso — em que as pessoas são esvaziadas de sua capacidade de sonhar com um horizonte coletivo — talvez seja a face mais sombria do nosso tempo.

Nós reforça o perigo daquilo que chamei de ausência de autonomia e o definhamento coletivo:

  1. A matematização e a burocracia: No livro de Zamiátin, a vida é reduzida a tabelas de horários estatais, fórmulas matemáticas e planilhas de felicidade obrigatória. Isso se assemelha à forma como o cidadão moderno é tratado pelas estruturas globais e algorítmicas atuais: apenas dados, views, consumidores ou números geridos para manter a engrenagem rodando.
  2. A ilusão do coletivo sem sujeito: Em Nós, as pessoas abdicam voluntariamente de sua individualidade porque o peso de pensar por si mesmas é grande demais. É o reflexo daquele cansaço psicológico comentado há pouco: quando a exaustão bate, o indivíduo prefere entregar seu senso crítico a fórmulas prontas, discursos salvadores ou algoritmos de redes sociais, desde que isso lhe poupe o esforço doloroso de confrontar a realidade.

Diante desse cenário em que a estrutura suga a energia vital das pessoas, onde ainda restariam (ou poderiam ser reconstruídos) os pequenos refúgios de lucidez e resistência humana?

Chegamos aqui ao livro de Loyola Brandão sem uma resposta ao questionamento central desse blablaismo, mas com elementos que gostaria de imaginar outros finais ao livro Não Verás País Nenhum, o qual traz uma dimensão ecológica ao problema geral. Sendo o Brasil uma referência mundial com seus rios e matas, faz todo sentido essa camada a mais ao resultado final:

  1. O final da "Normalização do Colapso" (A distopia adaptada):
    • A premissa: Não há uma explosão revolucionária nem uma redenção verde. A sociedade simplesmente aprende a respirar o ar poluído, a comprar água engarrafada de péssima qualidade e a naturalizar o calor extremo.
    • O significado: É o triunfo da distopia huxleyana combinada com a nossa realidade. As pessoas continuam trabalhando exaustivamente, consumindo memes e culpando o "inimigo da vez" enquanto o país derrete econômica e climaticamente. A catástrofe deixa de ser um evento e passa a ser o clima organizacional do país.
  2. O final da "Guerra Tribal Perpétua" (O fracionamento total):
    • A premissa: O Estado centralizador perde força e o território fragmenta-se em feudos de milícias, corporações e bolhas ideológicas incomunicáveis. Cada tribo tem sua própria "verdade científica" e seu próprio mercado de sobrevivência.
    • O significado: Em vez de um grande opressor orwelliano, o país implode em microfascismos cotidianos. A energia mental que restou ao povo é totalmente gasta em destruir o vizinho ideológico, blindando as estruturas de poder globais e locais de qualquer cobrança real. Todos vigiam todos, e a solidariedade de classe é substituída pelo ódio identitário ou político.
  3. O final do "Despertar Tarde Demais" (O ecocídio irreversível):
    • A premissa: O ciclo de negação da ciência e de destruição ambiental chega a um ponto de ruptura sistêmica (uma megasseca prolongada ou o colapso total da matriz energética e da produção de alimentos) em que nenhuma narrativa ou bode expiatório consegue mais encobrir a realidade.
    • O significado: A população finalmente percebe que a culpa era do modelo predatório que apoiaram ou toleraram, mas a constatação chega quando os recursos ecológicos e institucionais já cruzaram o "ponto de não retorno". O desfecho é a sobrevivência nua e crua em ruínas fumegantes.

Reflexão Final

Pensar em Não Verás País Nenhum hoje nos força a encarar a pergunta mais desconfortável de todas: quando a exaustão se torna permanente, a única saída coletiva é a utopia de uma chuva que limpe tudo, ou cabe à consciência lúcida resistir justamente na lucidez do diagnóstico?

Poderíamos também fazer menções honrosas a Ensaio sobre a Cegueira seguido do Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago; ao retorno a fundamentalismos em uma sociedade insegura por perder o referencial para suas respostas em Mundo em Descontrole, de Anthony Giddens; O Conto da Aia, de Margaret Atwood, e tantos outros.

Para aqueles que ainda acreditam se tratar apenas de ficção, curiosamente uma semana atrás em minha cidade natal surgiu uma lista para boicotar pessoas que teriam votado no partido X, em fulano X. De uma faísca singela surge o germe que serve de pontapé às distopias narradas acima. A ficção cada vez mais real, assim como em Maus, Berlin e demais livros sobre sociedades que superaram a imaginação e reinventaram os modelos de barbárie. Talvez desta forma consigamos compreender:
o mal que faz votar em X ou Y
o mal em nos cegarmos diante do espetáculo em que cada um tenta tirar proveito de sua verdade.
Sua verdade em detrimento da do outro, 
em detrimento do mundo.

Referências

  • ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  • ATWOOD, Margaret. O Conto da Aia. São Paulo: Rocco, 2017.
  • BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
  • BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. São Paulo: Biblioteca Azul, 2012.
  • BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não Verás País Nenhum. São Paulo: Global Editora, 2011.
  • DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
  • GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.
  • GIDDENS, Anthony. Mundo em Descontrole: O que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2000.
  • HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
  • IDIOCRACY. Direção: Mike Judge. Estados Unidos: Twentieth Century Fox, 2006. (Filme).
  • LUTES, Jason. Berlin. São Paulo: Veneta, 2020.
  • MCKAY, Adam. Não Olhe para Cima (Don't Look Up). Estados Unidos: Netflix, 2021. (Filme).
  • ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
  • SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
  • SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Lucidez. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
  • SPIEGELMAN, Art. Maus. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
  • ZAMIÁTIN, Ievguêni. Nós. São Paulo: Aleph, 2017.

 

domingo, 30 de junho de 2024

Caso perdido - Derrota


Parece existir um ciclo em que a cada 10 anos eu mesmo consigo me fazer de tolo. Isso me destrói todas as vezes, mas eu nunca aprendo. Me destrói em várias partes e sempre tenho uma parte a menos no final do processo. Mais uma vez me sentindo usado, me sentindo um lixo descartável, me sentindo desproporcionalmente valorizado, para menos, é claro! Como se não pudesse ser capaz como as outras pessoas de vivenciar algo verdadeiro. Como se eu não pudesse encontrar aquilo idealizado, nem ter um sonho minimamente concretizado.

São sempre lágrimas silenciosas, lágrimas solitárias, palavras sem interlocutores. Eu não aguento mais me dividir. Sei que em algum momento sobrará - nada. Em algum momento a morte voltará a ser um descanso e não uma penitência como é hoje. Vou parar de temer ela, e isto não será bom, só indicará que dói mais estar vivo do que morto, que as experiências da vida se tornaram insignificância. Que os motivos que me faziam querer que ela demorasse, já não estão lá.

Sempre me culpando. Sempre me desamando. Sempre eu comigo mesmo em um mundo de jogos, segredos, manipulações, sentimentos voláteis e pessoas líquidas escapando pelos dedos. É tão difícil assim sonhar com pouco e, mesmo assim não chegar a nada.

Tudo bem, é culpa minha. Deveria ter entendido melhor que deixar meu corpo sentir livremente, escolher e agir cegamente só poderia me fazer sofrer. A ambiguidade dava um tempero a mais ao paradoxo complicado que me estrangula os sentimentos e o futuro. O paradoxo de escolhas destrutivas, em meio a isso o mundo até poderia ter inúmeros possíveis, mas a realidade é brutal. Tanto quanto lutar pela sobrevivência, por aqueles que amamos e dependem de nós, por nossas responsabilidades, compromissos, por nós mesmos e um novo dia, se torna uma perda de tempo. Um tempo que não volta e cobra caro em cicatrizes. É absurdamente inaceitável que alguém consiga aniquilar a capacidade de sonhar da outra. Me sinto violentado dia a dia pela vida. Como uma criança suja em uma calçada, abandonada e negligenciada pela sociedade, me foi tirado todos possíveis vir a ser. Futuros negados. Sonhos e a inocência, roubados de mim o brilho nos olhos. Queria tanto esse brilho novamente (isentos da maldade dos outros).
Queria tanto não chorar mais em ruas repetidas, por pessoas semelhantes. Queria deixar de ser eu para poder ser alguém, assim como os outros, que tem seu encaixe no mundo, seu encaixe nas pessoas e consigam ser alguém. Pelo menos, parte daquilo que sonharam.

Nunca ignore suas intuições, vindo de uma linhagem de bruxos naturais, já era de se esperar que aquilo que os olhos fechados veem, trazem em si muitas verdades omissas. É o silêncio.

SILÊNCIO IMENSO,

pesado, um concreto, 

um prédio gigante por cima de mim espremido. Pela dor de saber dos seus outros possíveis.

Queria não ser teu refém. Queria saber gostar pouco. Queria que fosse numa medida em que o destino fizesse bem para ambos da forma como ambos em seus sonhos merecessem viver. A angústia cresce, tanto quanto ansiedade, desilusão, desencantamento e abuso. E mesmo assim nada importa, eu sou sempre seu refém. Salve-me de você mesmo. Me liberte de alguma forma ou me assuma como teu escravo, me de dignidade. Como posso seguir o caminho inverso do Pequeno Príncipe? Como deixar que o Afeto desapareça sem que para isso eu precise ter Alzheimer?  Se ao menos a distância diminuísse o que sinto. Se pelo menos você tivesse simplesmente feito o que eu esperava de você: indiferença, desmerecimento, repulsa, nojo, raiva que afasta, etc... talvez os sonhos em que sou humilhado não sejam somente sonhos. São meus sentimentos gritando para mim, implorando que lute para deixar de ser idiota um dia mais.

Os ciclos se repetem, as dores acumulam e meu tempo se esgota. Preciso ir embora, tanto quanto eu precisava de um amigo que não posso ter. Alguém que me visse a beira do abismo e soubesse como não me deixar cair, mesmo que para isso a solução fosse algo difícil de se imaginar exigindo mais criatividade do que poderíamos aceitar.

Eu queria nunca ter existido, mesmo apreciando cada toque, cada abraço, cada beijo, o afeto limitado. O uso feito da minha pele exclusiva. Do tempo em que eu existi na sua vida. Conforme as pessoas se afastam eu me lembro delas, mas para elas eu vou sumindo até que não reste nada, assim como é para mim, me dividindo a cada entrega, para elas cada ano que passa eu desapareço de suas lembranças e sentimentos, me tornando novamente um nada. Não para de doer, mas vou ter de me acostumar, a dor não vai passar, só vai ficar junto com as outras, pesando em minhas costas, meu passado, meus sonhos negados.

O calor, a pressão, o cheiro, a forma como cada abraço, cada toque, cada tudo ocorria. Lembranças preciosas guardadas a chave de ouro, minha vida e minha morte. Meu auge e meu fim. Queria dar adeus a mim, queria pedir desculpas a mim mesmo, por não poder ser dois que simultaneamente nos amparamos. Não queria um espelho, só queria poder sonhar ou acreditar que meus sonhos se realizariam caso eu fosse um bom menino e tinha alguém ponta firma para tudo que fosse preciso.

De que adianta tudo isso. Está tudo perdido sempre.

Dói de mais pensar, só quero existir, mas existindo eu me machuco e aumento mais ainda essa dor. Odeio ser somente um peão no seu tabuleiro de xadrez. Me descarte e passe por cima, como peça extraviada que o destino obriga ser, me destrua. Aguardarei o próximo ciclo de 10 anos, esperando que a próxima humilhação acabe de vez com aquilo, que nunca deveria ter sido... eu mesmo. Amém!

Para te usar tem muita gente;

Para você usar, sei que teria alguns em mente.

Amar talvez seja ainda muito complicado e quem te ama, o faz errado...

Passaram-se mais algumas horas e meus olhos estão inchandos de tanto engolir choro. Como dói não poder nem mesmo te pedir ajuda neste caso. Não para de doer repetidamente. Até sonhei que "fulAno" dizia que era melhor para todo mundo você estar morto. Após te usar e te descartar ele te deu veneno e me falou. Sai correndo, mas era tarde demais, mesmo sabendo que você me machucava e ia machucar ainda mais, a dor de não ter te salvado me levou junto. EU QUERO PARAR DE SENTIR,

FAZ PARAR DE DOER.

FAZ PARAR.

Acho que preferia ter me arrependido do que fiz e não do que deixei de fazer. De sonhar com um calor que ultrapassou os abraços, de saber a forma como sua boca se move e se entrega em beijo. De saber o que se oculta no seu prazer. Cumprir os sonhos que furaram a bolha do permitido e desvendar o veludo da bunda, a baba do pau, as cócegas tornadas em carinho erótico. Queria ter tido essa entrega, tanto quanto esperava que alguém soubesse um dia me dar de volta um pouco da intensidade que sinto e dou para elas. Mas não queria ter tantos ciúmes, não queria sonhar com uma vida impossível, queria ter encontrado uma outra pessoa que não fosse você, só para te poupar de mim.

Eu gosto tanto e queria tanto poder sustentar o que temos, mas como posso ser um amigo verdadeiro se o que desejo está além do limite? Será que depois do limite eu conseguiria finalmente valer a pena para que você pudesse ser verdadeiro comigo, confiando em mim? Por que as coisas são sempre iguais, será que estou sempre aprendendo a repetir os mesmos erros de formas diferentes? Quero sua felicidade, mas acredito que ela esteja em você se afastar de mim.

Por que é que eu não consigo ser bom o bastante em nada que eu faço? Por que não consigo fazer nada direito? As coisas nunca dão certo, mesmo sendo maravilhosas. Já faz tanto tempo que escrevo sobre as mesmas coisas em intensidades diferentes por aqui. Tudo é sempre igual e meu amor parece não pertencer a este mundo.

Não para de ecoar dentro de mim: 

Perdão.

                Perdão. 

                                 Perdão.

                                                  Mas para quem é esse som?

Amor e tristeza andam juntos, queria conseguir esconder tudo dentro de mim e ir aproveitando os pequenos presentes que ganho no desenrolar dos dias, mas não gosto de continuar me sentindo alguém usado. Só que não acho que possa sonhar algo a mais do que isso. Alguém que as pessoas recorrem para fugir do tédio, para escutá-las ou consolá-las quando elas querem. Retiro de mim minhas vontades e cumpro aquelas daqueles que recorrem a mim. ISTO quer ser útil já que não pode ser adequadamente amado. Eu luto pelas pessoas, mas nunca percebo ninguém lutando da mesma forma por mim, nem eu mesmo.

Sou ridículo, já posso escrever um romance sobre mim. Algo próximo do Idiota de Dostoievski, quem sabe talvez... não sei. Diriam que é muito drama, mas esse drama todo me dilacera por dentro, eu não sei mais o que fazer. Não sei como viver. Me sinto travado pelos meus erros. Antes eu deixava o fluxo de um rio me levar sem fazer escolhas e agora eu só tento me afogar.

Não quero a vida que tenho, não tenho esperanças em vidas futuras, e mesmo assim preciso esperar pelo acaso. Preciso estar apático e me sinto mal por ter pessoas a minha volta que vão se importar por um tempo com isso. Eu quero sumir e assim essas pessoas podem me esquecer logo e não participar mais destes dramas. Eu não paro de errar. Eu não consigo me expressar e estou assim, maluco. Ora consigo me manter bem outras estouro, mas sempre... tanto faz, eu desisto. Me entrego a minha imperfeição, me entrego ao buraco da minha vida e espero que essas palavras levem para o ralo toda força que restava em mim de fazer algo. Só quero deixar de sentir, ter vontades, me tornar um robô que faz o que tem de fazer. Me perdoe, não quero ser nada... eu nem sei o que estou escrevendo. Vou parar de falar besteiras, me perdoe.

Me perdoe!



terça-feira, 31 de maio de 2022

Láquesis

No turbilhão do tempo,

pessoas medíocres,

tradições “engessantes” de um mundo blasé

tirando o sorriso e brilho das possibilidades de vida...

de uma vida hedonista sincera, libertina íntima e pessoal

apenas silêncio, livros, séries e filmes.

Cartas de Tarot brincando com o destino

de onde a balança pende: felicidade, infelicidade, felicidade, infel.

Refletindo o peso de tudo que se esvazia na repetição

trivialidade

mundo em continuidade esquizofrênica...

Silêncio!

Comunicação que falha,

palavras que se desencontram.

Afetividades gerando ansiedades, fobias, delírios

e narrativas pobres ou empobrecidas, 

não sei dizer ao certo o quê.

Doce ignorância

batidas do coração -

Amor! Amor! Amor! Amor!

Buscando a fusão de almas gêmeas em um romance escolhido

desobrigado de uma casualidade cósmica inquestionável.

Compreensão

alteridade

narrativas

falácias

aquilo que mente corpo e matrimônio fazem de Hera seu estereótipo -

Abnegação. Ou não!

Com olhos tortos revira a alma e consome tudo até que o fogo nada deixe intacto.

Cabe a ambos utilizar o dom de Prometeu

a fim de produzir algo

que não ouso eu dizer o que é.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Liame

Existe um mundo fora dessas janelas, por entre as grades e telas um pouco de natureza. Pessoas que passam sons e cheiros.
Fora dessas janelas há: vidas, histórias, perigos, mas não são somente janelas onde me escondo, são por elas também que me abro. Janelas de um mundo lá e outro aqui dentro. Simples janelas que resignifico. Assim são elas, assim sou eu.
E sigo.
Já elas,
ficam.
...
Há um silêncio na madrugada que denuncia a insolidez do mundo.
Por todos os lados sem brisa, insetos, pessoas ou fenômenos da natureza.
Simplesmente o silêncio como se cada molécula atômica deixasse de existir. E por um momento rápido a impermanência das coisas perde a importância.
Anestesiado extasiado por sonhos contemplamos outra dimensão das coisas. Uma falsa realidade da matéria, nosso eterno ponto limítrofe. Quando somos não podemos deixar de ser e quando não somos, simplesmente não podemos ao mínimo nos dar ao luxo de paradoxalmente não termos sido.
Um aprisionamento, uma existência no silencio da madrugada. Por um estante apenas... des/existência.
Fico eu com rosto pesado sobre a tela de minha janela em devaneio enxergando sem olhos, cegando a vida, inebriando a sensatez. Subvertendo.
...
Imagine subverter a razão trocando de lado consciente com inconsciente, viver sonhando e sonhar como quando acordando. Toda significação de vida não passariam de símbolos indecifrados, uma linguagem surrealista de encontro consigo mesmo. Impulsos, desejos, possibilidades divisíveis. A libertação de um ser que não sou eu, ou talvez seja mais eu do que eu mesmo saberia dizer. Quem sou? O que sou? O que significa tudo isso?
Um pouco de mim dentro desse apartamento tentando olhar pelos quartos, sala, banheiro ou área de serviço o que tem aqui dentro e o que tem lá fora. Janelas amplas, pequenas em cada uma um novo ângulo, um novo mundo.
Emparelhamento dos devaneios
Sem freios o que será que sou?
O que sou?
Sou?
Solidão barulhenta dos muitos eus que gritam nesse apartamento, grudado na janela e voando longe para dentro de mim...
Vou embora
Algo fica
O que será que volta?


sábado, 22 de dezembro de 2018

Boa sorte!

Um coração despedaçado de olhos calados e lágrimas observa os desencaixes de outras vidas em suas belezas desarmonicas.
Tantas brigas e sonhos, anseios e desatinos.
Me doi o peito projetar minha vida em felicidades que patinam tanto no erro. Uma pena nao verem a chance que devia de ter nas mãos o futuro incerto da vida conjugal.
Com mais entrega, cumplicidade e dialogo o mundo deixa de ser problema e finalmente soma o destino fim.
Seja aquilo que procura.
Se torne aquilo, que deixaram de ser com você.
E permaneça.
Um abraço
Um afago
Duas vidas!

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Lhano

De uma escrita camuflada a vida enevoada ressalta o desejo impossível...
meta de vida que foge ao toque toda vez que arrisco a sorte de um desejo.
Mais do que um simples beijo, o menino idealizado em padrões se torna único detentor do meu sossego. Essa paz interior espelhada e confinada ao outro preserva minha condição de Eco.
Ninfa incapaz de ser, sem ser um outro quer perder-se em todos os corpos enquanto não encontra seu Narciso.
Melancolicamente esfria as noites retirando o sabor e alma de cada um que toca e destrói.
Não sente
Angustia-se
Dorme
São tantas as belezas plásticas que se derretem facilmente como a cera de uma vela quando a chama de um coração ofusca sua estrutura pouco solida. Toda disforme as pessoas são tantas, repletas de tantas histórias que com o tempo não temos mais paciência em redescobrir vivencias.
Tem pessoas que mudam de endereço, outros mudam sua forma externa, enquanto eu prefiro mudar a minha massa interna, me tornando outra pessoa... em que medida esta preservada a identidade?
Nada melhor do que dançar nu ao vento e chuva me sentindo usado por todo ambiente, cada parte do corpo completamente consumida
Por que não posso ser apenas um pedaço de carne fornicável? Essa necessidade compulsória de significação emocional é tão tediosamente angustiante.
Lírios da loucura
Um corpo após o outro sobre as minhas camas
Ninfa da perdição sou reflexo de uma luxuria social
Temporariamente
Esperançosa
de um futuro.

domingo, 15 de outubro de 2017

Prisão

















Veja em mim a pele solta que na cama pesadamente repousa como areia
Partes minhas esfareladas pela ampulheta do tempo deixam histórias secretas perdidas pelo lençol após tanto sono sem morte
Sonhos cegos desfazem o horizonte e esboçam o quão perdido está meu propósito
assim como o de meu corpo. Abandonada essência de Eros, resta apenas pulsões de morte homeopática – Vida apática acinzentada e sem chama
Se já não posso sentir
Se o corpo não responde mais a mim
Se sou objeto de uso violento e destrutivo
Se a consciência esvaziou-se
Para que um outro “se”?
Amigos não compreendem fazendo-se fantasmas do passado num futuro amargo onde tudo o que pode ser já foi um dia e novamente ciclico “se” repetira
Repetiria
Repetiria
... até o fim melancólico.
Sem empatia a vida brocha a falta de um amor exato e necessário a manutenção
Não quero a festas, rua, viagens, filmes, livros, brisas ante a solidão, compulsões, vícios
Desejo o toque mágico e recíproco de olhos rasgados
Fadados ao desencontro fica apenas para o mundo onírico a plenitude de uma existência que não se concretizou
Um texto tão quebrado assim só poderia vir de uma pessoa de mil recortes toda desencaixada, um quebra-cabeças largado as traças
A boca silencia e os desejos já distantes desaparecem
Todos desaparecem
Resta um silencio total
Uma insignificância honorável e sem história
Não é suicídio é dês-existência
Havia ali amor e já secou
Havia ali tempero e grandiloquência por conjugação
O que havia foi perdido pelo tempo intransitivo
Como passos no deserto que desaparecem lentamente
Desaparecido fiquei
Esfarelado nessa cama
Meu coração feito areia de um algo maior que já teria sido
Perdido
Repetido
Perdido
Chamam a isso – Inferno
Eterna repetição de uma dor
Estaria eu já morto a tanto tempo que até me esqueci já ter estado alguma vez vivo?

Repetido.